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Perspetivas criticas
O modelo dominante de afirmacao de genero � em que a identidade de genero autodeclarada do paciente e confirmada e, a pedido, apoiada medicamente � tem estado nos ultimos anos sob fortes criticas cientificas e eticas. Esta pagina sintetiza as principais objecoes. A critica nao incide sobre a existencia da disforia de genero nem sobre as pessoas trans enquanto tal, mas sobre a qualidade da evidencia, sobre os pressupostos subjacentes ao modelo de cuidados e sobre o modo como as vozes dissidentes na medicina foram, durante muito tempo, marginalizadas.
A Cass Review: base de evidencia fraca
A Cass Review (2024), sob a direcao da pediatra Hilary Cass e por encomenda do NHS britanico, e a mais profunda avaliacao independente dos cuidados de genero juvenis ate hoje. A review encarregou a Universidade de York de fazer revisoes sistematicas de todos os estudos disponiveis sobre bloqueadores da puberdade, hormonas cruzadas e resultados psicologicos. As conclusoes foram impressionantes: a qualidade da evidencia era, em larga medida, "very low" segundo os criterios GRADE. Nao havia evidencia convincente de que os bloqueadores da puberdade melhorem o bem-estar psiquico, reduzam o risco de suicidio ou "deem tempo" sem consequencias. O NHS decidiu deixar de prescrever bloqueadores da puberdade para disforia de genero fora de investigacao clinica e encerrou a clinica Tavistock.
O Dutch Protocol: o alicerce vacila
O chamado Dutch Protocol � desenvolvido por De Vries, Steensma e Cohen-Kettenis no Amsterdam UMC � constitui, a nivel internacional, a base dos cuidados de genero juvenis. Levine, Abbruzzese e Mason (2022) e outros apontam problemas fundamentais: uma amostra pequena e fortemente selecionada (n=55 na publicacao original de resultados), a ausencia de grupo de controlo, seguimento curto, selecao desfavoravel de medidas de resultado e o facto de um participante ter morrido durante a cirurgia sem que isso fosse referido na publicacao principal. A atual populacao de pacientes � maioria de raparigas adolescentes com problematica comorbida � difere, alem disso, fortemente da coorte original de criancas com disforia precoce persistente. A generalizacao do protocolo a este novo grupo nao tem justificacao cientifica.
Inversoes de rumo internacionais
Nao foi so o Reino Unido a mudar de rumo. A Suecia (relatorio SBU, 2022) aboliu praticamente os bloqueadores da puberdade em menores fora de contexto de investigacao. A Finlandia (orientacao COHERE, 2020) estabeleceu a psicoterapia como tratamento de primeira linha. A Noruega classificou os bloqueadores da puberdade como tratamento experimental. A Dinamarca segue a mesma linha. A convergencia destas conclusoes em paises com cuidados de saude sociais plenos e sem polarizacao politica em torno do tema e elocuente.
Os WPATH Files
Os WPATH Files (2024), discussoes internas filtradas da World Professional Association for Transgender Health, mostraram que os profissionais reconhecem entre si que os pacientes menores nao conseguem avaliar as implicacoes dos seus tratamentos � como a perda de fertilidade, a anorgasmia ou a dependencia vitalicia de hormonas � enquanto, externamente, se afirma que o consentimento informado e cuidadosamente prestado. A versao 8 dos Standards of Care (SOC-8) eliminou as idades minimas para varias intervencoes, sob pressao do Departamento de Saude dos EUA. Isso mina a confianca na WPATH enquanto autoridade medico-cientifica imparcial.
Os bloqueadores da puberdade nao sao uma pausa
A afirmacao de que os bloqueadores da puberdade sao "reversiveis" e "dao tempo para pensar" nao e sustentada pela evidencia disponivel. Entre 96% e 98% das criancas que iniciam bloqueadores avancam para hormonas cruzadas � uma proporcao incompativel com a ideia de exploracao neutra. Existem indicios de efeitos duradouros na densidade ossea, no desenvolvimento cerebral, na fertilidade e na funcao sexual. O High Court britanico, em Bell v. Tavistock, decidiu que e improvavel que os menores sejam competentes para prestar consentimento informado para esses tratamentos.
Contagio social e as raparigas adolescentes
Desde cerca de 2010, o numero de encaminhamentos por disforia de genero nos Paises Baixos e nos paises circundantes multiplicou-se por dez a vinte. A proporcao por sexo inverteu-se: historicamente, a grande maioria dos pacientes eram rapazes biologicos; hoje sao, maioritariamente, raparigas adolescentes, muitas vezes com comorbilidade de autismo, ansiedade, depressao ou trauma. Littman (2018) descreveu este padrao como "rapid-onset gender dysphoria" e apontou o possivel papel das redes sociais e das comunidades em linha. Ver tambem ROGD e desistance.
A destransicao e subestimada
Durante muito tempo foram apresentadas taxas de destransicao inferiores a 1%, com base em estudos com grande perda de seguimento e seguimento curto. As coortes recentes e os estudos de autorrelato encontram percentagens entre 7% e 30% entre quem alguma vez fez uma transicao medica. Muitas pessoas em destransicao referem que nao foram suficientemente informadas pelos seus profissionais sobre alternativas e riscos. Ver destransicao.
Direitos das mulheres e servicos baseados no sexo
A substituicao do sexo biologico pela identidade de genero autodeclarada na legislacao causa tensoes em torno de servicos baseados no sexo: competicoes desportivas, prisoes, casas de acolhimento de mulheres, vestiarios e categorias de dados na investigacao. Os criticos � entre os quais feministas gender-critical � sublinham que estas ponderacoes merecem uma discussao social seria e que rotular cada critica como "transfobia" bloqueia um debate aberto.
O silencio no interior da medicina
Uma das observacoes mais perturbadoras e o tempo que demorou ate que a critica metodologicamente solida chegasse as revistas mainstream. Os medicos que internamente exprimiram duvidas relatam intimidacao, represalias profissionais e acusacoes publicas de transfobia. A Cass Review documenta expressamente este clima. Um clima medico-cientifico saudavel exige que as hipoteses sejam testadas e que o dissenso seja discutivel � precisamente em tratamentos profundos e em parte irreversiveis.